As doses fortes do STF e as sentenças
no prelo deixam a sensação de que a justiça foi bem feita. As penas altas
fizeram alguns festejar o início de uma nova era. Como figura pública, o
ministro Barbosa emerge como novo e intempestivo fator. Passei incólume pela euforia. Talvez
porque as narrativas não alcançaram ou discutiram o que realmente importa: a
agressão à democracia. Claro, eles não eram malfeitores comuns, as intenções
eram as melhores possíveis, fazer prevalecer o que acreditavam ser o melhor para
todos. Não compravam deputados, tentaram era calar qualquer voz dissonante. Mas,
se eles derem licença, preciso dizer que eu, como muitos, não tenho claro que o isso
deles é o melhor. Se bem esclarecida, a maioria também recusaria o
“melhor para todos” goela abaixo, e o trocaria por um punhado de liberdade para discordar.
Então, descubro que a incapacidade de
vibrar com sentenças judiciárias não decorre só da natureza melancólica e
deprimente dos fatos mas de perceber, em todo canto, que a ideologia triunfa
sobre ideias, e assim vai inutilizando e desconstruindo o diálogo, a nossa grande
chance de sair dessa furada.
Pergunto-me se eles realmente
perderam. Talvez aqui paire a grande ilusão, pois, no final das contas, a lógica
do mensalão deu certo! Isso porque parte significativa da esquerda prefere se
esconder atrás dos justificacionismos a exercer a autocrítica. Se com a
direita a tese geral era o pornográfico “benefícios privados, riscos públicos”,
a moda agora é “por melhores indicadores sociais, vale a pena até matar”. É a sórdida mistura dessas duas
lógicas que triunfa no Brasil contemporâneo, e não só na política.
Por isso, nada espantoso que tenhamos
pena de morte de policiais decretada a partir de celulares de presídios de
segurança máxima, ações desastradas que tentam estancar a sangria das chacinas
diárias entre traficantes, milicianos e organizações criminosas, e o espetacular
resultado final: os habitantes das cidades sem saberem a quem recorrer e como se
defenderem da ausência de regras. Em caso de dúvida, perguntem ao ministro da
Justiça! Lembremo-nos de que muitos réus foram avalizados por votação, e permanecem
cultuados nas seitas às quais pertencem. Eles não são vilões solitários,
tampouco os autonomeados mártires, como costumam se apresentar.
Será que estamos sendo conservadores?
Injustos? Há alguma chance de encarar como justo o que os réus fizeram diante
das circunstâncias históricas? Vale breve recapitulação.
Engatinhávamos na democracia e, de
joelhos, vimos Tancredo Neves desabar um dia antes da posse. O que nos
aconteceu ali? O medo de que toda conquista das diretas, e o direito de escolher
nossos representantes fosse, mais uma vez, adiado. Isso até que a Junta Militar
decidisse se estávamos ou não maduros para votar. No palitinho, ganhamos um voto
de confiança dos generais. E o que fizemos com nossa liberdade? Com a ajuda da
mídia elegemos Collor, e com a ajuda da grande mídia corrigimos o equívoco. Em
seguida, o intelectual FHC, um benévolo luxo inédito que nos permitimos, depois
de longo período de obscuridade. O país avançou, as instituições se
fortaleceram, apesar da má vontade da oposição petista da época. E foi esse
avanço mais a essencial estabilidade da moeda que permitiu que Lula levasse a
eleição seguinte. Triunfo importante para os trabalhadores, novos avanços e
surpresa: alguma esperança republicana com a civilizada manutenção das
conquistas dos governos anteriores. Mas eis que o candente núcleo político
decidiu que precisava da hegemonia, e, inspirado em esquema preexistente, do
qual quase todos os outros partidos já haviam se beneficiado, montou o mais
ousado e maciço assalto à República de todos os tempos. Aí veio a briga pelo
espólio e as denúncias de Jefferson. O governo balançou, e não caiu graças às
ameaças de dossiês que, de parte a parte, geraram pânico entre os políticos e
seus financiadores. A República, amedrontada, desmontaria. Será?
Aqui
é possível afirmar:
precisamos enxergar que ainda NÃO vivemos em pleno estado democrático de
direito nem gozamos de liberdade ampla geral e irrestrita, já que democracia sem diálogo não passa de ditadura
com voto.
Ninguém é 100% em nada, muito menos
honesto ou desonesto. Mas há uma linha tabu, que não deve ser ultrapassada:
decência e transparência com a coisa pública. E esqueçam arrependimentos: por
paixão, ganância e poder, eles fariam tudo de novo, embrulhados na bandeira de
uma doutrina anacrônica e rançosa, que já não atende mais às sociedades do
mundo. Direita e esquerda falharam,
falham e falharão, levando, junto com suas experiências caóticas, centenas de
milhões ao buraco e aos divãs.
Alguém precisa inventar nova
direção. Talvez nenhuma!
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